Aula Rápida · Emergência em Pequenos Animais

Transfusão Sanguínea em Cães e Gatos

HemocomponentesDoadores e tipagemReações transfusionais
02:34 / 08:12
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Considerações

A transfusão sanguínea não é um tratamento: é uma medida de urgência e de suporte, oferecendo reposição temporária e efetiva dos componentes sanguíneos enquanto a causa de base é investigada e resolvida.

Princípios
  • Não é considerado um tratamento.
  • Medida de urgência.
  • Suporte temporário ao paciente.
  • Reposição efetiva dos componentes sanguíneos.
Frações do sangue
  • Plasma: água, proteínas e fatores de coagulação.
  • Buffy-coat: glóbulos brancos e plaquetas.
  • Hemácias: transporte de oxigênio.
  • Cada fração origina um hemocomponente específico.
Hemocomponentes

Modalidades de transfusão

1
Sangue total (ST)
Indicado no sangramento agudo. Contém hemácias, leucócitos, proteínas plasmáticas, todos os fatores de coagulação e plaquetas.
2
Concentrado de hemácias (CH)
Indicado para reposição de células vermelhas. Obtido por sedimentação gravitacional com remoção do plasma. Hematócrito de 50 a 80%, duração de 5 dias a 2-6 °C. Preparação: adicionar 250 mL de NaCl 0,9%.
3
Plasma rico em plaquetas (PRP)
Indicado para reposição de plaquetas. Estocado sob agitação, com período de estocagem de 5 dias.
4
Plasma de 24 h (P24)
Indicado para fatores de coagulação dependentes de vitamina K. Há perda dos fatores V, VIII e das plaquetas. Congelado entre 8 e 24 h após a coleta.
5
Plasma fresco congelado (PFC)
Indicado quando são necessários todos os fatores de coagulação. Composto por água e proteínas (albumina, globulinas, fatores de coagulação, carboidratos e lipídios). Conservação a -20 a -70 °C, validade de 6 meses a 1 ano.
6
Crioprecipitado (CRIO)
Rico em fatores de coagulação. Proteínas insolúveis entre 1 e 6 °C. Obtenção: descongela-se o PFC, remove-se o sobrenadante e recongela-se.

Além dos hemocomponentes, existem os hemoderivados: albumina, globulinas e concentrado de fatores de coagulação.

Doadores

Quem pode doar

Caninos
  • Adultos e saudáveis, de 2 a 5 anos.
  • Peso mínimo de 25 kg.
  • Vacinados e vermifugados.
  • Temperamento dócil.
  • Ht > 40% e Hb > 16 mg/dL.
  • Testados para leishmaniose e hemoparasitoses.
Felinos
  • Adultos e saudáveis.
  • Acima de 5 kg, coleta máxima de 60 mL por gato.
  • Ht > 35% e Hb > 11 mg/dL.
  • FIV e FeLV não reagentes.

Volume de coleta: até 20 mL/kg no doador canino e máximo de 60 mL no doador felino.

Imuno-hematologia

Tipagem sanguínea

Sistema DEA (cães)
  • DEA 1: DEA 1.1, DEA 1.2 e DEA 1 negativo.
  • DEA 3: positivo ou nulo.
  • DEA 4: positivo ou nulo.
  • DEA 5: positivo ou nulo.
  • DEA 6: positivo ou nulo.
  • DEA 7 e DEA 8.
Como tipar na rotina
  • Testes rápidos de bancada (kits individuais ou em caixa).
  • Tipar doador e receptor antes de qualquer bolsa.
  • Registrar o tipo sanguíneo no prontuário do doador.
  • Felinos nunca devem ser transfundidos sem tipagem.

Gato nunca é transfundido "no escuro"

A tipagem sanguínea é obrigatória em felinos. Uma única bolsa incompatível pode causar hemólise fulminante.

Padrão-ouro

Compatibilidade sanguínea

Padrão-ouro

Tipagem sanguínea associada às provas de compatibilidade

A incompatibilidade se manifesta por aglutinação ou hemólise nos tubos. Quando as hemácias permanecem livremente suspensas, o resultado é compatível. A leitura deve ser feita macroscópica e microscopicamente para diferenciar de rouleaux.

Provas cruzadas
  • Prova maior: soro do PACIENTE + hemácias do DOADOR.
  • Prova menor: soro do DOADOR + hemácias do PACIENTE.
Controles
  • Controle paciente: soro e hemácias do paciente.
  • Controle doador: soro e hemácias do doador.
Cálculo

Volume a transfundir

Fórmula

Volume (mL) = (peso do receptor × n) × (Ht desejado − Ht do receptor) ÷ Ht do doador

Sendo n = 90 para cães e n = 70 para gatos.

Metas de referência
  • Cães: Ht ≥ 40% e Hb > 13 mg/dL.
  • Gatos: Ht ≥ 35% e Hb > 11 mg/dL.
Limites do doador
  • Doador canino: até 20 mL/kg de sangue.
  • Doador felino: máximo de 60 mL.
Coleta

Materiais e cuidados na coleta

  • Contenção adequada, antissepsia rigorosa e punção de jugular.
  • Bolsas com anticoagulante ou seringas com anticoagulante proporcional.
  • Homogeneização constante durante toda a coleta.
  • Equipo de transfusão com filtro para infundir no receptor.
  • Armazenamento em geladeira específica para banco de sangue.
Complicações

Reações transfusionais

Imunológicas
  • Urticária.
  • Hemólise.
  • Febre.
  • Hemolíticas tardias: as mais comuns, causam queda do hematócrito.
Não imunológicas
  • Hemólise por falha de estocagem.
  • Febre.
  • Intoxicação por citrato (hipocalcemia).
  • Transmissão de doenças.
  • Sobrecarga circulatória.

Minutos após o início da infusão

Tremores, vômito, febre e arritmias exigem interrupção imediata da transfusão.

Conduta

E se ocorrer reação?

1
Hemolítica aguda
Hipertermia, taquipneia, taquicardia, hemoglobinemia, hemoglobinúria e choque. Interromper a transfusão, fluidoterapia, dexametasona 4 a 6 mg/kg IV, dopamina 2 a 5 µg/kg/min em infusão contínua e furosemida 2 a 4 mg/kg IV.
2
Hipersensibilidade aguda
Taquipneia, dispneia, êmese, diarreia, salivação, urticária, prurido, angioedema e eritema. Interromper a transfusão, fluidoterapia, dexametasona 0,5 a 1 mg/kg IM ou IV e difenidramina 1 mg/kg IM.
3
Reação não hemolítica febril (RTNF)
Hipertermia, êmese e tremores. Interromper a transfusão e administrar dexametasona 0,5 a 1 mg IM ou IV.
4
Contaminação bacteriana
Hipertermia, taquipneia, taquicardia, êmese e choque. Interromper a transfusão, remover todos os materiais e produtos contaminados, realizar cultura do produto sanguíneo e do sangue do paciente e iniciar antibióticos de amplo espectro.
5
Sobrecarga circulatória
Taquipneia, taquicardia, ascite, edema pulmonar e efusão pleural. Interromper a transfusão, usar diuréticos com ou sem vasodilatador e reiniciar lentamente, preferindo concentrado de hemácias.
6
Intoxicação por citrato
Hipocalcemia com tremores, hipertermia, êmese e arritmias cardíacas. Administrar gluconato de cálcio 10%, 0,5 a 1,5 mL/kg IV em 5 a 10 minutos, com monitoração por ECG.
Conclusão

Mensagens para levar da aula

  • Transfusão é medida de urgência e suporte, nunca tratamento da doença de base.
  • Escolha o hemocomponente pelo déficit do paciente.
  • Doadores triados e testados são a base da segurança transfusional.
  • Tipagem e provas de compatibilidade antes de qualquer bolsa.
  • Volume = (peso × 90 no cão ou 70 no gato) × (Ht desejado − Ht receptor) ÷ Ht doador.
  • Diante de qualquer sinal de reação: PARE a transfusão e reavalie o paciente.
Doadores rastreados garantem um banco de sangue seguro.
Reavalie hematócrito e perfusão após a transfusão.
Monitoração contínua reduz a gravidade de qualquer reação.
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