Aula Rápida · Hemoterapia / Emergência

Transfusão Sanguínea em Cães e Gatos

HemocomponentesSistema AB felinoReações transfusionais
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Visão geral

O que é e o que não é a transfusão

A transfusão sanguínea é a transferência de sangue da circulação de um indivíduo para outro com propósito terapêutico e deve ser encarada como um transplante temporário de "órgão". Não é tratamento da doença de base: é suporte, quase sempre em contexto de urgência, oferecendo reposição temporária, efetiva e segura de componentes sanguíneos.

Princípios
  • Não é tratamento: é suporte enquanto a causa é resolvida.
  • Sempre pesar benefícios x riscos.
  • Avanço dos bancos de sangue veterinários no Brasil.
  • Indicação clínica, nunca apenas um número isolado.
Anticoagulantes conservantes
  • CPDA-1 (citrato, fosfato, dextrose e adenina): 35 dias.
  • ACD, CPD e CP2D: 21 dias.
  • Bolsas ou seringas já heparinizadas/citratadas.
  • Nunca usar Ringer Lactato na linha: cálcio quela o citrato.
Imuno-hematologia

Tipos sanguíneos de cães e gatos

Caninos - Sistema DEA
  • DEA 1.1, 1.2, 1.3, 3, 4, 5 e 7.
  • Maior potencial antigênico: DEA 1.1, 1.2 e 7.
  • Um mesmo cão pode expressar vários antígenos.
  • Anticorpos surgem em geral após a 2ª transfusão - reação hemolítica aguda na primeira é rara.
Felinos - Sistema AB
  • Tipos A, B e AB. Não existe doador universal.
  • Altos títulos de anticorpos naturais desde a primeira transfusão.
  • A → B: reação hemolítica grave (anti-A potente).
  • B → A: transfusão ineficaz, menor meia-vida das hemácias.

Gato nunca é transfundido "no escuro"

A tipagem sanguínea é obrigatória em felinos. Uma única bolsa incompatível pode causar hemólise fulminante.

Doadores

Seleção do doador ideal

Cães
  • Peso acima de 28 kg e idade de 1,5 a 7 anos.
  • Hematócrito > 40%.
  • Macho ou fêmea em anestro, bom comportamento.
  • Vacinação, vermifugação e controle de ectoparasitas em dia.
  • Negativo para leishmaniose, babesiose, erliquiose, anaplasmose, brucelose e dirofilariose.
  • Idealmente DEA 1.1, 1.2 e 7 negativos e sem histórico de transfusão.
Gatos
  • Peso acima de 4,5 kg e idade de 2 a 7 anos.
  • Hematócrito > 35%.
  • Macho ou fêmea em anestro, bom comportamento.
  • Negativo para FIV, FeLV e micoplasmose.
  • Sedação ou anestesia costumam ser necessárias.
  • Tipagem sanguínea sempre determinada.

Intervalo entre doações: a cada 2 meses. Volume máximo coletado: 19 mL/kg em cães e 13 mL/kg em gatos.

Coleta

Como coletar com segurança

  • Contenção física ou química, decúbito lateral e antissepsia cirúrgica da jugular.
  • Tempo máximo de coleta: 15 minutos, com homogeneização constante da bolsa.
  • Bolsas com CPDA-1 ou seringas com anticoagulante proporcional.
  • Armazenamento em geladeira específica para banco de sangue - nunca geladeira comum.
Hemocomponentes

O que cada bolsa entrega

1
Sangue total (ST)
Hemácias, proteínas plasmáticas, fatores de coagulação e plaquetas. Fresco (até 8 h) mantém plaquetas e fatores lábeis; estocado (21 a 35 dias, 2 a 6 °C) perde plaquetas e fatores V e VIII. Indicado em sangramento agudo e hipovolemia.
2
Concentrado de hemácias (CH)
Obtido por centrifugação ou sedimentação, com remoção do plasma. Hematócrito de 70-80%, validade de até 5 semanas a 2-6 °C. Antes da infusão, ressuspender em NaCl 0,9% para facilitar a administração.
3
Plasma fresco congelado (PFC)
Congelado em até 8 h após a coleta, a -18 a -30 °C. Rico em todos os fatores de coagulação (inclusive V e VIII), albumina e globulinas. Validade de 1 ano. O PFC24 (congelado entre 8 e 24 h) tem redução variável de fatores V e VIII.
4
Concentrado de plaquetas (CP)
Obtido na segunda centrifugação ou por aférese. Armazenado à temperatura ambiente (20-24 °C) sob agitação constante, com validade de apenas 5 dias.
5
Crioprecipitado (CRIO)
Fração de plasma insolúvel a frio: descongela-se o PFC entre 1 e 6 °C, remove-se o sobrenadante e recongela-se em até 1 h. Rico em fator VIII, fator de von Willebrand, fibrinogênio, fator XIII e fibronectina. Validade de 12 meses.
Indicações

Quando transfundir e o quê

Gatilhos clínicos e laboratoriais
  • Perda aguda de 30% da volemia.
  • Anemia crônica com sinais sistêmicos de hipóxia.
  • Cães: Ht ≤ 15% ou Hb ≤ 5 g/dL. Gatos: Ht ≤ 12% ou Hb ≤ 3 g/dL.
  • TPC > 3 s, mucosas pálidas, taquicardia, taquipneia.
  • Hiperlactatemia, quedas bruscas de hematócrito, choque não responsivo.
  • ECG com sinais de hipóxia miocárdica / arritmias.
Escolha do hemocomponente
  • Sangue total: hipovolemia e necessidade de fatores de coagulação.
  • Concentrado de hemácias: paciente normovolêmico com anemia grave (hemólise, AHIM).
  • Plasma fresco: coagulopatias e deficiência de fatores.
  • Crioprecipitado: fibrinogênio, fator VIII e von Willebrand.
  • Plasma rico em plaquetas ou CP: trombocitopenia com sangramento espontâneo.

Hematócrito desejado pós-transfusão: cães 25 a 30% e gatos 20 a 25%. Atenção constante à sobrecarga de volume.

Padrão-ouro

Tipagem sanguínea + prova cruzada antes de transfundir

Padrão-ouro

Tipagem (DEA / AB) associada ao teste de compatibilidade

A tipagem sanguínea do doador e do receptor, complementada pela prova cruzada, é o método mais seguro para prevenir reações hemolíticas. A prova cruzada é a alternativa quando não há tipagem disponível. A incompatibilidade se manifesta por hemólise ou aglutinação, que deve ser avaliada macroscópica e microscopicamente para diferenciar de rouleaux.

Prova maior
  • Soro do PACIENTE + hemácias do DOADOR.
  • É a prova mais crítica: detecta anticorpos do receptor.
Prova menor e controles
  • Prova menor: soro do DOADOR + hemácias do PACIENTE.
  • Controle paciente: soro e hemácias do paciente.
  • Controle doador: soro e hemácias do doador.
Cálculo

Volume a transfundir e velocidade de infusão

Fórmula

Volume (mL) = peso (kg) × n × (Ht desejado − Ht do receptor) ÷ Ht do doador

Sendo n = 90 para cães e n = 70 para gatos.

Exemplo: Francisco, felino, 3,5 kg
  • Ht do receptor 5%, Ht desejado 15%, Ht do doador 50%.
  • V = (3,5 × 70) × (15 − 5) ÷ 50.
  • V = 245 × 10 ÷ 50 = 50 mL.
Velocidade de infusão
  • Primeiros 30 minutos: 0,5 mL/kg (teste de tolerância).
  • Depois: 5 a 10 mL/kg/hora conforme estado cardiovascular.
  • Tempo total máximo de 4 horas por bolsa.
  • Reduzir a taxa em cardiopatas e nefropatas.
Administração

Cuidados durante a transfusão

  • Aquecer o sangue refrigerado até a temperatura ambiente antes de infundir.
  • Usar sempre equipo de transfusão com filtro: remove coágulos e agregados plaquetários.
  • Dois acessos venosos no receptor: um para a bolsa, outro para fluidos e medicações.
  • Somente NaCl 0,9% na mesma linha - NUNCA Ringer Lactato (o cálcio quela o citrato e forma coágulos).
  • Monitorar TPC, mucosas, temperatura, FC, FR e pressão a cada 15 a 30 minutos.
  • Reavaliar hematócrito ao final e algumas horas após a transfusão.
Complicações

Reações transfusionais

Imunológicas
  • Hemolítica aguda: anticorpos pré-existentes contra hemácias transfundidas.
  • Hemolítica tardia: mais comum, cursa com queda do hematócrito dias depois.
  • Alérgica (hipersensibilidade tipo I): urticária, eritema e prurido.
  • Febril não hemolítica: a mais relatada na veterinária, por antígenos leucocitários.
Não imunológicas
  • Intoxicação por citrato: hipocalcemia, tremores, êmese e arritmias.
  • Hemólise por erro de armazenamento ou aquecimento.
  • Sepse associada à transfusão (contaminação bacteriana da bolsa).
  • Sobrecarga circulatória e hipotermia.
  • Transmissão de doenças infecciosas.

Sinais nos primeiros minutos

Tremores, vômito, febre, taquicardia e taquipneia exigem interrupção imediata da infusão.

Conduta

E se ocorrer reação?

1
Reação hemolítica aguda
Hipertermia, taquipneia, taquicardia, hemoglobinemia, hemoglobinúria e choque. Interromper a transfusão e NÃO retomar. Fluidoterapia, oxigenoterapia, controle da produção urinária, dexametasona 4 a 6 mg/kg IV, dopamina 2 a 5 µg/kg/min em infusão contínua e furosemida 2 a 4 mg/kg IV se necessário.
2
Reação alérgica
Urticária, eritema e prurido. Interromper a infusão e administrar difenidramina ou prometazina, corticoide, fluidoterapia e oxigenoterapia conforme a gravidade.
3
Reação febril não hemolítica
Elevação de temperatura sem hemólise. Interromper, reavaliar o paciente e descartar hemólise e contaminação antes de qualquer decisão sobre nova transfusão.
4
Intoxicação por citrato
Tremores, hipertermia, êmese e arritmias por hipocalcemia. Administrar gluconato de cálcio 10%, 0,5 a 1,5 mL/kg IV em 5 a 10 minutos, sob monitoração eletrocardiográfica.
Conclusão

Mensagens para levar da aula

  • Transfusão é suporte de urgência, não tratamento da doença de base.
  • Escolha o hemocomponente pelo déficit do paciente, não pelo que está disponível.
  • Tipagem é obrigatória em gatos; prova cruzada aumenta a segurança em ambas as espécies.
  • Volume = peso × 90 (cão) ou 70 (gato) × (Ht desejado − Ht receptor) ÷ Ht doador.
  • Primeiros 30 minutos a 0,5 mL/kg: é quando a maioria das reações aparece.
  • Somente NaCl 0,9% na linha da transfusão; nunca Ringer Lactato.
Doadores triados e rastreados são a base de um banco de sangue seguro.
Reavalie hematócrito e perfusão após a transfusão.
Monitoração contínua reduz a gravidade de qualquer reação.
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