Aula Rápida · Dermatologia / Clínica

Otite Externa em Cães

Caninos - raças predispostasConduto auditivo externoRecidiva frequente
02:34 / 08:12
Material escrito da aula
Anexo de apoio · exportável em HTML
Visão geral

O que é otite externa

A otite externa é a inflamação do canal auditivo externo, uma das afecções mais prevalentes na rotina clínica de pequenos animais. Geralmente é causada por bactérias, fungos,ácaros ou quadros alérgicos, e cursa com prurido auricular intenso, head shaking, odor desagradável e secreção.

Pode ser uni ou bilateral e é classificada em aguda ou crônica (recorrente ou persistente). A secreção pode ser ceruminosa ou purulenta, e o quadro pode ou não estar associado a um agente infeccioso.

  • Raramente é doença primária isolada - investigue o gatilho subjacente (atopia, alergia alimentar, corpo estranho, endocrinopatia).
  • Sempre avaliar a integridade da membrana timpânica antes de prescrever produtos tópicos.
Anatomia aplicada

Orelha externa do cão

O conduto auditivo do cão tem formato em L: um segmento vertical que segue até a curvatura e um segmento horizontal que termina na membrana timpânica. Essa anatomia retém umidade e cerume — ambiente favorável para proliferação de fungos e bactérias.

Sinais clínicos

O que o tutor relata e o que você encontra

Queixas do tutor
  • Balançar a cabeça com frequência (head shaking).
  • Coçar as orelhas ou esfregar a cabeça no chão e nos móveis.
  • Mau cheiro perceptível na região do ouvido.
  • Sensibilidade ao toque, augia e inclinação de cabeça.
Achados ao exame
  • Eritema cutâneo e edema do pavilhão e do conduto.
  • Secreção ceruminosa - tons que vão do amarelado ao marrom-escuro ou negro.
  • Cerume com odor anormal, hiperqueratose, dor auricular.
  • Em quadros crônicos: estenose do canal, proliferação tecidual e otite média associada.
Causas

Por que essa orelha inflamou

Otite primária

Não há relação com outras afecções — o próprio agente ou fator inicia o quadro (ex.: corpo estranho, Otodectes cynotis).

Otite secundária

Existe uma doença preexistente responsável pelo surgimento da otite — com destaque para dermatopatias alérgicas e endocrinopatias.

  • Microbiana: proliferação excessiva de fungos e bactérias (Staphylococcus, Pseudomonas) favorecida por umidade e calor do canal.
  • Alérgica: atopia e reação alimentar adversa - a otite costuma ser a primeira manifestação clínica.
  • Parasitária: Otodectes cynotis (ácaros), mais comum em jovens e em coabitação com felinos.
  • Corpos estranhos: sementes, carrapichos, acúmulo de pelos ou cerume impactado.
  • Anatomia predisponente: orelhas longas e caídas (Cocker Spaniel, Basset, Golden Retriever) ou canais muito pilosos (Poodle, Shih Tzu).
  • Fatores perpetuantes: otite média não diagnosticada, alterações proliferativas crônicas e biofilme bacteriano.
Fatores predisponentes

O que aumenta o risco de otite

  • Alergias ou hipersensibilidade alimentar.
  • Atopia.
  • Doenças imunológicas e endocrinopatias (hipotireoidismo, hiperadrenocorticismo).
  • Umidade no conduto (banhos frequentes, natação).
  • Ácaros oportunistas e outros parasitas.
  • Características fenotípicas raciais - orelhas pendulares, canal estreito, muito piloso.
  • Hiperprodução de cerúmen.
  • Causas obstrutivas: neoplasias, pólipos, granulomas e corpos estranhos.
  • Dermatopatias crônicas de base.
Padrão ouro

O que define a conduta correta

Gold standard

Otoscopia + citologia auricular guiando o tratamento tópico

O padrão ouro para otite externa em cães é a combinação de otoscopia bilateral com avaliação da membrana timpânica e citologia do swab auricular, que define o agente (fungos, cocos ou bastonetes) e fundamenta a escolha racional do antimicrobiano. Em casos crônicos, recidivantes, com bastonetes ou suspeita de otite média, complementar com cultura e antibiogramae, quando indicado, tomografia computadorizada ou videotoscopia. Tudo isso somado à identificação e ao controle da causa primária - sem ela, qualquer tratamento recidiva.

Pilares diagnósticos
  • Otoscopia bilateral + checagem do tímpano.
  • Citologia do swab auricular (coloração rápida tipo Diff-Quik).
  • Cultura e antibiograma nos casos crônicos ou com bastonetes.
  • Imagem (TC ou videotoscopia) se houver suspeita de otite média.
Pilares terapêuticos
  • Limpeza com ceruminolítico/solução otológica adequada.
  • Antimicrobiano tópico escolhido pela citologia (antifúngico e/ou antibiótico).
  • Anti-inflamatório (glicocorticoide) tópico para controle da dor e do edema.
  • Controle da causa primária: atopia, alergia alimentar, endocrinopatia, corpo estranho.
Diagnóstico

Roteiro de avaliação clínica

1
Anamnese dirigida
Identifique recidivas, sazonalidade, prurido em outras regiões, banho frequente, natação e contactantes. Atopia e alergia alimentar são gatilhos primários comuns.
2
Otoscopia bilateral
Avalie quantidade e aspecto da secreção, grau de estenose, presença de corpo estranho e integridade da membrana timpânica - condiciona a escolha do produto tópico.
3
Citologia (swab auricular)
Exame de eleição. Diferencia fungos (leveduras em pegada), cocos (estafilococos) e bastonetes (geralmente Pseudomonas) - guia a escolha racional do antimicrobiano tópico.
4
Cultura e antibiograma
Reservada para casos crônicos, recidivantes, com bastonetes na citologia ou suspeita de otite média.
5
Investigação da causa primária
Dieta de eliminação, controle ambiental, exames endócrinos quando indicado. Sem tratar o gatilho, a otite volta.
Tratamento

Limpeza, medicamento tópico e tempo correto

O manejo combina limpeza cuidadosa do conduto com solução ceruminolítica adequada e aplicação de gotas otológicascontendo antibiótico, antifúngico e anti-inflamatório, escolhidos a partir da citologia. A duração típica é de 7 a 21 dias; há também opções de dose única de aplicação ambulatorial.

  • Identifique e trate a causa base - sem isso, qualquer terapia recidiva.
  • Na maioria dos casos, não há necessidade de medicamentos sistêmicos.
  • Terapia tópica: ceruminolítico para limpeza + antimicrobianos, antifúngicos, anti-inflamatórios esteroidais e anestésicos locais.

Atenção à resistência antimicrobiana! Use antibióticos com base na citologia e, quando indicado, cultura e antibiograma - nunca empiricamente e por tempo insuficiente.

Boas práticas
  • Demonstre a limpeza para o tutor - técnica errada perpetua o quadro.
  • Reavalie com citologia ao final do tratamento, não apenas pela melhora clínica.
  • Trate sempre a causa primária identificada.
Armadilhas comuns
  • Prescrever tópico com aminoglicosídeo sem confirmar tímpano íntegro.
  • Suspender o tratamento ao primeiro sinal de melhora - favorece recidiva e resistência.
  • Ignorar bastonetes na citologia - pode haver Pseudomonas com biofilme.
Complicação

Otohematoma - a complicação clássica da otite

O otohematoma é o acúmulo de sangue entre a pele e a cartilagem do pavilhão auricular, geralmente decorrente do trauma auto-infligido pelo prurido e head shaking intensos da otite externa não controlada. O pavilhão fica tumefeito, quente e doloroso, com aspecto de "almofada".

Manejo clínico
  • Drenagem cirúrgica com incisão no pavilhão auricular.
  • Suturas paralelas em toda a extensão do hematoma para evitar recidiva e deformidade em couve-flor.
  • Curativo compressivo e controle da dor no pós-operatório.
Não esqueça
  • Tratar simultaneamente a otite externa de base - ela é a causa do trauma.
  • Investigar e controlar o gatilho primário (atopia, alergia, ácaros).
  • Sem tratar a otite, o otohematoma recidiva ou ocorre na orelha contralateral.
Conclusão

Mensagens para levar da aula

  • Avalie cuidadosamente cada caso - anamnese, otoscopia bilateral e citologia são obrigatórias.
  • Identifique e trate a causa base - a otite quase sempre é secundária.
  • Atenção redobrada às otites recorrentes: reavalie o diagnóstico, investigue otite média e reforce a educação do tutor.
  • Fique atento ao otohematoma como complicação de otites mal controladas.
Resumo

Sinais clínicos em caninos

  • Head shaking e prurido auricular.
  • Secreção auricular ceruminosa, com tonalidade marrom-escura a negra.
  • Cerume com odor anormal.
  • Edema auricular e eritema cutâneo.
  • Hiperqueratose do conduto.
  • Dor auricular à manipulação.
O tratamento da otite externa exige diagnóstico veterinário individualizado - jamais delegue ao tutor a escolha do produto.
Avaliação

Você gostou dessa aula?

Seu voto é anônimo e nos ajuda a melhorar as próximas aulas.

Seja o primeiro a avaliar
Feedback

Envie uma observação sobre o material

Sua contribuição ajuda a aprimorar as próximas aulas. Responderemos no e-mail informado quando necessário.

0/1000 caracteres