Aula Rápida · Emergência / Cirurgia

Caso Clínico: Ruptura Diafragmática 

DiafragmaFelinosEmergência
02:34 / 08:12
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Definição

O que é a ruptura diafragmática

A ruptura diafragmática é um defeito no diafragma que permite a passagem de órgãos abdominais para a cavidade torácica. É classificada como hérnia falsa, pois não possui saco herniário.

Classificação
  • Congênitas: defeito de fechamento embrionário do diafragma.
  • Traumáticas: ruptura do diafragma após trauma (85% dos casos).
Caso clínico
  • Felino, fêmea, SRD, 7 meses, 2,15 kg.
  • Queixa: apatia, dispneia, hiporexia e emagrecimento.

Fonte: Johnston e Tobias, Veterinary Surgery Small Animal (2012).

Etiologia

Ruptura diafragmática traumática

A forma traumática responde por 85% dos casos e decorre de lesões diretas (pelo próprio agente) ou indiretas (por aumento abrupto da pressão intra-abdominal). Classifica-se ainda em aguda ou crônica conforme o tempo entre o trauma e o atendimento.

  • Atropelamento, chutes e quedas são as principais causas.
  • Lesões diretas: trauma penetrante sobre o diafragma.
  • Lesões indiretas: aumento da pressão intra-abdominal durante a inspiração.
  • Forma aguda x crônica, conforme o tempo de evolução.
Fisiopatogenia

Como o diafragma se rompe

Durante a inspiração, o gradiente de pressão pleuroperitoneal aumenta. Um trauma nesse momento eleva bruscamente a pressão intra-abdominal, criando grande diferença de pressão entre tórax e abdômen. A pressão se concentra sobre o diafragma e o rompe em seus pontos mais frágeis.

Lesões associadas
  • 39% dos cães e gatos apresentam lesões musculoesqueléticas.
  • Contusão pulmonar, derrame pleural e pneumotórax.
  • Lesão de órgãos abdominais e fratura de costelas.
Padrão da ruptura
  • 15% são bilaterais ou múltiplas.
  • Fígado herniado em 88% dos casos.
  • Rupturas radial, circunferencial ou combinada.
Efeitos patológicos

Impacto respiratório e sobre os órgãos

Sobre a respiração
  • Pressão dos órgãos e fluidos sobre o pulmão.
  • Ausência de um diafragma funcionante.
  • Perda da pressão pleural negativa.
  • Dor pelo trauma, limitando a expansão.
Sobre os órgãos herniados
  • Obstrução parcial ou completa e comprometimento vascular.
  • Timpanismo gástrico e estase venosa hepática.
  • Necrose hepática e obstrução do ducto biliar.
  • Hidrotórax e ascite (30% dos casos).

Arritmias cardíacas ocorrem em alguns casos; a taquicardia ventricular aparece em cerca de 12% dos pacientes.

Sinais clínicos

Sinais e achados do exame físico

O quadro varia conforme o volume de órgãos herniados e o tempo de evolução. Atente para sinais respiratórios e para o achado de abdômen "vazio" à palpação.

  • 38% apresentam dispneia e intolerância ao exercício.
  • Posição ortopneica: sentado ou em pé, cotovelos abduzidos e pescoço estendido.
  • Vômito, diarreia, constipação e emagrecimento.
  • Abdômen 'vazio' à palpação.
  • Ausculta: sons cardíacos abafados e borborigmos auscultáveis.
  • Mucosas pálidas, cianóticas ou ictéricas.
Diagnóstico

Diagnóstico por imagem

O diagnóstico se baseia em anamnese, exame físico e exames complementares. A contenção devem ser evitadas para não agravar a dispneia.

Radiografia
  • Incidência mais útil: lateral (precisão de 93%).
  • Perda parcial da linha diafragmática.
  • Não visualização ou deslocamento cardíaco.
  • Pulmão deslocado e presença de derrame pleural.
  • Rx contrastado nos casos duvidosos.
Ultrassonografia
  • Melhor quando há derrame pleural.
  • Menos estresse para o paciente instável.
  • Útil para avaliar viabilidade dos órgãos herniados.

Em pacientes instáveis, priorize a ultrassonografia e a radiografia com o mínimo de manejo possível.

Tratamento

Conduta cirúrgica

O reparo cirúrgico deve ser feito o mais rápido possível, em um paciente estável. Atrasos na cirurgia aumentam o risco de hipoventilação, especialmente se há pressão do estômago sobre o pulmão. Além do reparo diafragmático, avalie e repare lesões associadas e fraturas.

  • Monitoramento contínuo antes e durante o procedimento.
  • Estabilização respiratória antes da indução anestésica.
  • Reparo de órgãos herniados e de fraturas associadas.
Técnica cirúrgica

Passo a passo do reparo

1
Ventilação mecânica
Indispensável pela perda da integridade diafragmática e da pressão pleural negativa.
2
Tricotomia ampla
Tricotomia ampla, incluindo região de esternotomia se necessário, e tricotomia lateral do tórax.
3
Acesso e afastamento
Uso de afastadores e sugador para expor o campo e remover fluido.
4
Redução dos órgãos
Redução cuidadosa dos órgãos herniados, ampliando o defeito diafragmático quando necessário.
5
Síntese do diafragma
Fechamento do defeito com sutura adequada, restaurando a integridade do diafragma e a pressão pleural negativa.
Pós-operatório

Cuidados após a cirurgia

1
Radiografia pós-imediata
Rx de controle para confirmar a redução e a reexpansão pulmonar.
2
Internação e monitoração
Internação com monitoração contínua nas primeiras horas.
3
Controle multimodal da dor
Analgesia multimodal fundamental para o bem-estar e a recuperação.
4
Suporte respiratório
Oxigenioterapia se necessário; toracocentese ou tubo de toracostomia em caso de pneumotórax ou derrame residual.
Complicações e prognóstico

O que vigiar após o reparo

Complicações
  • Edema pulmonar por reexpansão.
  • Pneumotórax e derrame pleural.
  • Falência de órgãos herniados.
Prognóstico
  • Complicações em 50% dos casos.
  • 15% evoluem a óbito antes da anestesia.
  • Sobrevida de 82 a 89%.
O edema de reexpansão é a principal complicação respiratória após a redução.
Estabilize o paciente antes de qualquer abordagem cirúrgica definitiva.
Ventilação mecânica é obrigatória durante todo o procedimento.
Internação, analgesia multimodal e Rx de controle fazem parte do tratamento.
Caso clínico

Ruptura diafragmática em felino: passo a passo

O atendimento da ruptura diafragmática segue uma sequência lógica: anamnese e histórico, exame físico com atenção à ausculta e ao padrão respiratório, exames hematológicos, eletrocardiograma, controle da dor, raio-x e, por fim, a definição da conduta terapêutica.

Mecanismo da ruptura
  • Na inspiração, o gradiente de pressão pleuroperitoneal aumenta.
  • O trauma nesse momento rompe o diafragma nos pontos mais frágeis.
  • Órgãos abdominais passam para a cavidade torácica.
Cavidades em jogo
  • Cavidade torácica: pulmões, coração e grandes vasos.
  • Cavidade abdominal: aloja a maioria dos órgãos do sistema digestório.
  • O diafragma é a divisória entre as duas cavidades.
Caso clínico

Raio-x do paciente

As radiografias torácicas do paciente mostram a perda da linha diafragmática e a presença de órgãos abdominais no tórax, achados típicos da ruptura diafragmática.

Caso clínico

Cirurgia: reparo da ruptura

Com o paciente estabilizado e sob ventilação mecânica, realizou-se a celiotomia, a redução dos órgãos herniados e a síntese do diafragma com sutura contínua simples (padrão de Kurschner), utilizando fio de náilon.

Caso clínico

Pós-cirúrgico e recuperação

No pós-cirúrgico, a paciente seguiu em internação com controle da dor, monitoração respiratória e radiografia de controle. A evolução foi satisfatória, com recuperação completa em casa.

Conclusão

Mensagens para levar da aula

  • Ruptura diafragmática é um defeito no diafragma que permite a passagem de órgãos abdominais para o tórax; 85% são traumáticas.
  • A ruptura ocorre nos pontos mais frágeis pelo gradiente de pressão pleuroperitoneal durante a inspiração.
  • Sinais: dispneia, posição ortopneica, abdômen 'vazio' e sons cardíacos abafados.
  • Diagnóstico pela radiografia lateral (93% de precisão) e ultrassonografia em pacientes instáveis.
  • Reparo cirúrgico o mais rápido possível em paciente estável, com ventilação mecânica obrigatória.
  • Vigie o edema de reexpansão; sobrevida de 82 a 89%.
Reavalie a respiração e a reexpansão pulmonar nos retornos.
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