O fungo dimórfico Sporothrix
A esporotricose é causada por fungos do gênero Sporothrix, que acometem humanos e outros animais. Afeta principalmente vasos linfáticos e pele (75%), mas também pulmões, ossos, cérebro e articulações. No Brasil, as espécies mais comuns são S. brasiliensis e S. schenckii.
- Distribuição mundial; micose subcutânea mais frequente na América Latina.
- Fungo dimórfico: forma micelial (natureza) e forma de levedura (hospedeiro).
- Prolifera em ambientes úmidos e solo rico em matéria orgânica.
- Presente em espinhos, arbustos, árvores e vegetação em decomposição.
- Natureza a 25°C: forma micelial, de filamentos.
- Hospedeiro a 37°C: forma de levedura (parasitária).
- A forma de levedura parasita o homem e os animais (zoonose).
- Contato com lesões na pele permite a instalação da doença.
Formas clínicas no ser humano
A infecção ocorre pela implantação do fungo na pele ou mucosa após trauma com espinhos, palha, casca de madeira, contato com vegetais em decomposição ou arranhadura e mordedura de animais doentes, sendo o gato o transmissor mais comum. Período de incubação de uma semana a um mês.
- Doença comum na Ásia, África, Oceania e Américas; rara na Europa pelo clima frio.
- Principal fonte atual: gatos domésticos contaminados.
- Além do trauma cutâneo, há relatos de transmissão inalatória por tosse ou espirro de animais infectados.
Por que o gato é o principal transmissor
Os felinos são mais suscetíveis ao fungo e apresentam grande carga do micro-organismo em cavidade oral e unhas. Por isso, a maioria dos relatos é de transmissão gato-homem e gato-cão. Onde há grande número de gatos de rua, a infecção pode prevalecer no ambiente e gerar epidemias.
- Lesões ulceradas na pele e feridas profundas, geralmente com pus.
- Feridas que não cicatrizam e evoluem rapidamente.
- Lesões nodulares avermelhadas sem dor ou coceira inicialmente.
- Predileção por cabeça e extremidades das patas.
- Podem ocorrer em mucosas, pulmões, ossos, articulações e SNC.
- Arranhaduras ocorrem geralmente na cabeça, local mais comum das lesões.
- O fungo destrói progressivamente epiderme, derme, colágeno, músculos e ossos.
- Pode acometer órgãos internos, agravando o quadro clínico.
- Fraqueza, anorexia e febre são comuns; em cães pode haver linfadenomegalia.
Cultura micológica do complexo Sporothrix
Isolamento em cultura micológica
O isolamento do fungo em cultura confirma o diagnóstico ao permitir a visualização das duas formas: levedura e micélio. Semeia-se em ágar Sabouraud dextrose 4% com inibidores de crescimento de oportunistas, incubando por 14 a 15 dias a 25 a 29°C para observação da forma micelial característica. Em seguida, prepara-se outra placa com meio levedura peptona dextrose em estufa a 37°C para a reversão de micélio em levedura.
Itraconazol e iodeto de potássio no felino
- Itraconazol via oral.
- Associar iodeto de potássio 20 mg/kg a cada 12 a 24 horas.
- Em lesões nasais, atenção à sensibilidade do gato ao fármaco.
- Manter o tratamento por pelo menos 30 dias após a remissão das feridas.
- Continuar por três semanas após a cura aparente e associar protetor hepático.
- Proibir o acesso dos pets à rua.
- Limpeza do ambiente.
- Castração.
- Animais mortos devem ser incinerados; enterrar mantém o esporo no solo.
- Não abandonar animais doentes - além de cruel, provoca epidemia.
É uma doença curável
Apesar de exigir medidas rigorosas de segurança, é perfeitamente possível curar os animais acometidos, com remissão completa dos sinais clínicos.
Manejo do animal infectado
- Limpar, desinfetar ou esterilizar artigos e equipamentos de assistência ao animal.
- Isolar o animal infectado, com o mínimo de manipulação.
- Desinfecção das instalações com cloro.
- Uso obrigatório de EPI: luvas, manga comprida, óculos e máscara.
- Lavagem das mãos com água e sabão e uso de iodo.
- Lavar e desinfetar diariamente a área ocupada e todos os objetos, incluindo brinquedos.
Desinfecção na clínica veterinária
- Agendar a consulta em horário sem outros pacientes e clientes no consultório.
- Uso correto de EPI pela equipe, com desinfecção de óculos e jalecos e descarte de luvas, máscaras e toucas.
- Desinfetar superfícies e instrumental utilizados.
- Desinfetar o ambiente.
- Desinfecção pessoal após manusear o animal: mãos, antebraços e demais áreas necessárias.
- Instalações isoladas adequadas para internação de animais contaminados.
- Nunca atender outros animais no mesmo ambiente antes da desinfecção completa.
Mensagens para levar da aula
- Sporothrix é fungo dimórfico: micelial na natureza e levedura no hospedeiro.
- O gato é o principal transmissor, com alta carga fúngica em unhas e cavidade oral.
- Citologia imprinting é rápida, mas negativa não exclui a doença.
- Cultura micológica é o padrão-ouro para confirmação.
- Itraconazol com iodeto de potássio, mantido além da remissão das lesões.
- Biossegurança e EPI são obrigatórios: trata-se de zoonose.
