Aula Rápida · Infectologia / Zoonose

Esporotricose Felina

Sporothrix spp.Gatos domésticosZoonose
02:34 / 08:12
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Etiologia

O fungo dimórfico Sporothrix

A esporotricose é causada por fungos do gênero Sporothrix, que acometem humanos e outros animais. Afeta principalmente vasos linfáticos e pele (75%), mas também pulmões, ossos, cérebro e articulações. No Brasil, as espécies mais comuns são S. brasiliensis e S. schenckii.

Características do agente
  • Distribuição mundial; micose subcutânea mais frequente na América Latina.
  • Fungo dimórfico: forma micelial (natureza) e forma de levedura (hospedeiro).
  • Prolifera em ambientes úmidos e solo rico em matéria orgânica.
  • Presente em espinhos, arbustos, árvores e vegetação em decomposição.
Duas formas no ciclo de vida
  • Natureza a 25°C: forma micelial, de filamentos.
  • Hospedeiro a 37°C: forma de levedura (parasitária).
  • A forma de levedura parasita o homem e os animais (zoonose).
  • Contato com lesões na pele permite a instalação da doença.
Quadros da doença

Formas clínicas no ser humano

A infecção ocorre pela implantação do fungo na pele ou mucosa após trauma com espinhos, palha, casca de madeira, contato com vegetais em decomposição ou arranhadura e mordedura de animais doentes, sendo o gato o transmissor mais comum. Período de incubação de uma semana a um mês.

1
Cutânea
Uma ou múltiplas lesões, principalmente em mãos e braços, em forma de nódulos avermelhados. Podem surgir na boca e nos olhos.
2
Linfocutânea (forma mais frequente)
Pequenos nódulos na camada profunda da pele seguindo o trajeto do sistema linfático, preferencialmente nos membros. Tendem a se unir em um cordão duro que atinge o gânglio pelos vasos linfáticos.
3
Cutânea disseminada
Os nódulos se disseminam pela pele. Mais frequente em imunodeprimidos.
4
Extracutânea
Pode afetar ossos, testículos, pulmões, articulações e sistema nervoso. Sintomas semelhantes à tuberculose (pulmão) ou à artrite (ossos e articulações), associados a febre, náusea e perda de peso. É a forma mais grave.
Epidemiologia

  • Doença comum na Ásia, África, Oceania e Américas; rara na Europa pelo clima frio.
  • Principal fonte atual: gatos domésticos contaminados.
  • Além do trauma cutâneo, há relatos de transmissão inalatória por tosse ou espirro de animais infectados.
Esporotricose felina

Por que o gato é o principal transmissor

Os felinos são mais suscetíveis ao fungo e apresentam grande carga do micro-organismo em cavidade oral e unhas. Por isso, a maioria dos relatos é de transmissão gato-homem e gato-cão. Onde há grande número de gatos de rua, a infecção pode prevalecer no ambiente e gerar epidemias.

Sinais clínicos no gato
  • Lesões ulceradas na pele e feridas profundas, geralmente com pus.
  • Feridas que não cicatrizam e evoluem rapidamente.
  • Lesões nodulares avermelhadas sem dor ou coceira inicialmente.
  • Predileção por cabeça e extremidades das patas.
  • Podem ocorrer em mucosas, pulmões, ossos, articulações e SNC.
Patogenia
  • Arranhaduras ocorrem geralmente na cabeça, local mais comum das lesões.
  • O fungo destrói progressivamente epiderme, derme, colágeno, músculos e ossos.
  • Pode acometer órgãos internos, agravando o quadro clínico.
  • Fraqueza, anorexia e febre são comuns; em cães pode haver linfadenomegalia.
Padrão-ouro

Cultura micológica do complexo Sporothrix

Padrão-ouro

Isolamento em cultura micológica

O isolamento do fungo em cultura confirma o diagnóstico ao permitir a visualização das duas formas: levedura e micélio. Semeia-se em ágar Sabouraud dextrose 4% com inibidores de crescimento de oportunistas, incubando por 14 a 15 dias a 25 a 29°C para observação da forma micelial característica. Em seguida, prepara-se outra placa com meio levedura peptona dextrose em estufa a 37°C para a reversão de micélio em levedura.

Tratamento

Itraconazol e iodeto de potássio no felino

Protocolo
  • Itraconazol via oral.
  • Associar iodeto de potássio 20 mg/kg a cada 12 a 24 horas.
  • Em lesões nasais, atenção à sensibilidade do gato ao fármaco.
  • Manter o tratamento por pelo menos 30 dias após a remissão das feridas.
  • Continuar por três semanas após a cura aparente e associar protetor hepático.
Prevenção
  • Proibir o acesso dos pets à rua.
  • Limpeza do ambiente.
  • Castração.
  • Animais mortos devem ser incinerados; enterrar mantém o esporo no solo.
  • Não abandonar animais doentes - além de cruel, provoca epidemia.

É uma doença curável

Apesar de exigir medidas rigorosas de segurança, é perfeitamente possível curar os animais acometidos, com remissão completa dos sinais clínicos.

Cuidados

Manejo do animal infectado

  • Limpar, desinfetar ou esterilizar artigos e equipamentos de assistência ao animal.
  • Isolar o animal infectado, com o mínimo de manipulação.
  • Desinfecção das instalações com cloro.
  • Uso obrigatório de EPI: luvas, manga comprida, óculos e máscara.
  • Lavagem das mãos com água e sabão e uso de iodo.
  • Lavar e desinfetar diariamente a área ocupada e todos os objetos, incluindo brinquedos.
Biossegurança

Desinfecção na clínica veterinária

  • Agendar a consulta em horário sem outros pacientes e clientes no consultório.
  • Uso correto de EPI pela equipe, com desinfecção de óculos e jalecos e descarte de luvas, máscaras e toucas.
  • Desinfetar superfícies e instrumental utilizados.
  • Desinfetar o ambiente.
  • Desinfecção pessoal após manusear o animal: mãos, antebraços e demais áreas necessárias.
  • Instalações isoladas adequadas para internação de animais contaminados.
  • Nunca atender outros animais no mesmo ambiente antes da desinfecção completa.
Conclusão

Mensagens para levar da aula

  • Sporothrix é fungo dimórfico: micelial na natureza e levedura no hospedeiro.
  • O gato é o principal transmissor, com alta carga fúngica em unhas e cavidade oral.
  • Citologia imprinting é rápida, mas negativa não exclui a doença.
  • Cultura micológica é o padrão-ouro para confirmação.
  • Itraconazol com iodeto de potássio, mantido além da remissão das lesões.
  • Biossegurança e EPI são obrigatórios: trata-se de zoonose.
Nunca atenda outro paciente no mesmo ambiente antes da desinfecção completa.
Recidivas são possíveis: reavalie o paciente após o término do tratamento.
Oriente o tutor sobre risco zoonótico.
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