O que é a erliquiose canina
A erliquiose canina é uma das hemoparasitoses mais prevalentes em cães, causada pela Ehrlichia canis, bactéria intracelular obrigatória, gram-negativa e pleomórfica com tropismo pelos monócitos. É transmitida principalmente pela picada do carrapato Rhipicephalus sanguineus (carrapato-marrom-do-cão).
- Bactéria intracelular obrigatória (monócitos).
- Vetor principal: Rhipicephalus sanguineus.
- Transmissão por transfusão sanguínea e transplacentária.
- Período de incubação: 8 a 20 dias.
- Husky Siberiano.
- Pastor Alemão.
- Todas as raças são suscetíveis à infecção.
- Não há transmissão direta cão-humano.
Papel do carrapato na transmissão
O carrapato adquire a E. canis ao se alimentar de um cão infectado. O agente se multiplica no carrapato e nas células da glândula salivar, com transmissão transestadial (larva → ninfa → adulto). Todas as fases evolutivas contaminadas podem transmitir a doença durante o repasto sanguíneo.
Aguda, subclínica e crônica
O que esperar no exame físico
- Perda de peso, anorexia, letargia e febre.
- Linfadenomegalia e esplenomegalia.
- Petéquias e equimoses em pele e mucosas.
- Epistaxe.
- Conjuntivite, uveíte e edema de córnea.
- Convulsões, ataxia e paresia.
- Hiperestesia e déficits de nervos cranianos.
- Hifema / Meningite / meningoencefalite (menos comum).
Raciocínio clínico passo a passo
PCR para Ehrlichia canis + clínica compatível
PCR + clínica compatível + hemograma
A PCR é o método mais sensível e específico para confirmar a infecção ativa por E. canis e diferenciá-la de outras espécies. Deve ser interpretada em conjunto com o quadro clínico e as alterações hematológicas (trombocitopenia, anemia, hiperglobulinemia). Sorologia isolada positiva pode refletir apenas memória imunológica.
O que mais entra no raciocínio
- Babesiose.
- Anaplasmose.
- Febre maculosa.
- Trombocitopenia imunomediada.
- Lúpus eritematoso sistêmico.
- Leucemia linfocítica crônica.
Coinfecções são frequentes
O R. sanguineus também transmite Anaplasma sp., Babesia sp., Bartonella sp., Hepatozoon sp. e Mycoplasma sp. Infecções mistas agravam o quadro clínico e podem piorar o prognóstico.
Doxiciclina é a base terapêutica
- Doxiciclina 10 mg/kg VO SID ou 5 mg/kg VO BID.
- Duração: 28 dias (fase aguda).
- Estender para 6 a 8 semanas em casos persistentes.
- Resposta clínica costuma ser rápida na fase aguda.
- Transfusão sanguínea em anemia grave.
- Fluidoterapia conforme hidratação e perdas.
- Anti-inflamatórios e imunomoduladores criteriosos.
- Suporte nutricional de alta densidade energético-proteica.
Monitoramento pós-tratamento
Hemogramas seriados. Sorologia pode permanecer positiva por meses - reflete memória imunológica, não infecção ativa.
Depende da fase clínica ao diagnóstico
- Diagnóstico e tratamento na fase aguda.
- Ausência de coinfecções.
- Resposta imunológica preservada.
- Fase crônica com pancitopenia.
- Vasculite imunomediada e glomerulonefrite.
- Sinais neurológicos por meningoencefalite.
- Coinfecções (Babesia, Anaplasma, Hepatozoon).
Controle do vetor é indispensável
Ainda não há vacina disponível. A base é a profilaxia antiparasitária contínua contra carrapatos, o manejo ambiental e o acompanhamento veterinário periódico. Escolha do antiparasitário deve considerar estilo e fase de vida e necessidades do paciente.
Mensagens para levar da aula
- Suspeite de erliquiose em cães com trombocitopenia, esplenomegalia ou sinais hemorrágicos.
- Ausência de carrapato visível não descarta a infecção.
- PCR é o padrão-ouro; sorologia isolada não confirma infecção ativa.
- Doxiciclina 10 mg/kg SID ou 5 mg/kg BID por 28 dias é o tratamento de escolha.
- Controle antiparasitário contínuo é a principal medida preventiva.
