Aula Rápida · Infectologia / Clínica

Erliquiose Canina

Ehrlichia canisVetor: R. sanguineusPancitopenia
02:34 / 08:12
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Visão geral

O que é a erliquiose canina

A erliquiose canina é uma das hemoparasitoses mais prevalentes em cães, causada pela Ehrlichia canis, bactéria intracelular obrigatória, gram-negativa e pleomórfica com tropismo pelos monócitos. É transmitida principalmente pela picada do carrapato Rhipicephalus sanguineus (carrapato-marrom-do-cão).

Características
  • Bactéria intracelular obrigatória (monócitos).
  • Vetor principal: Rhipicephalus sanguineus.
  • Transmissão por transfusão sanguínea e transplacentária.
  • Período de incubação: 8 a 20 dias.
Raças mais suscetíveis a quadros graves
  • Husky Siberiano.
  • Pastor Alemão.
  • Todas as raças são suscetíveis à infecção.
  • Não há transmissão direta cão-humano.
Ciclo

Papel do carrapato na transmissão

O carrapato adquire a E. canis ao se alimentar de um cão infectado. O agente se multiplica no carrapato e nas células da glândula salivar, com transmissão transestadial (larva → ninfa → adulto). Todas as fases evolutivas contaminadas podem transmitir a doença durante o repasto sanguíneo.

O ciclo do R. sanguineus é predominantemente ambiental - o relato do tutor de que "o animal nunca teve carrapatos" não exclui a possibilidade de infecção.
Fases clínicas

Aguda, subclínica e crônica

1
Fase aguda (1 a 3 semanas após incubação)
Replicação em monócitos e macrófagos, vasculite sistêmica e trombocitopenia. Febre, letargia, linfadenomegalia, esplenomegalia, anorexia e perda de peso. Soroconversão geralmente já detectável; podem ser observadas mórulas intracitoplasmáticas em monócitos.
2
Fase subclínica (meses a anos)
Persistência do agente em medula óssea, baço e monócitos circulantes, com baixa parasitemia. Animais assintomáticos podem atuar como portadores crônicos. Hemograma pode mostrar apenas trombocitopenia discreta.
3
Fase crônica
Disfunção medular com anemia não regenerativa, leucopenia e trombocitopenia marcante. Hiperglobulinemia policlonal, vasculite imunomediada e deposição de imunocomplexos. Epistaxe, petéquias, uveíte e sinais neurológicos podem ocorrer. Sem tratamento, pode ser irreversível e fatal.
Sinais clínicos

O que esperar no exame físico

Sistêmicos e hemorrágicos
  • Perda de peso, anorexia, letargia e febre.
  • Linfadenomegalia e esplenomegalia.
  • Petéquias e equimoses em pele e mucosas.
  • Epistaxe.
Oculares e neurológicos
  • Conjuntivite, uveíte e edema de córnea.
  • Convulsões, ataxia e paresia.
  • Hiperestesia e déficits de nervos cranianos.
  • Hifema / Meningite / meningoencefalite (menos comum).
Diagnóstico

Raciocínio clínico passo a passo

1
Anamnese e histórico epidemiológico
Exposição a vetores, viagens, ambiente com carrapatos e sinais prévios compatíveis. Lembrar: ausência de carrapato visível não descarta a infecção.
2
Exame físico
Febre, linfadenomegalia, esplenomegalia, alterações oculares e sinais hemorrágicos. Esplenomegalia isolada pode ser o único achado em alguns pacientes.
3
Hemograma e bioquímico
Anemia normocítica normocrômica, trombocitopenia, leucopenia ou leucocitose reativa. Aumento de ALT, AST e FA; hipoalbuminemia e hiperglobulinemia.
4
Sorologia (ELISA / RIFI)
Detecta anticorpos a partir da 2ª semana pós-infecção. Não diferencia infecção ativa de exposição pregressa - interpretar junto à clínica e ao hemograma.
5
PCR
Mais sensível e específico - detecta o DNA de E. canis de 4 a 10 dias após a infecção. Útil nas fases aguda e subclínica e para diferenciar espécies de Ehrlichia spp.
6
Ultrassonografia abdominal
Esplenomegalia, hepatomegalia, linfadenomegalia abdominal e aumento da ecogenicidade hepática.
Padrão-ouro

PCR para Ehrlichia canis + clínica compatível

Padrão-ouro

PCR + clínica compatível + hemograma

A PCR é o método mais sensível e específico para confirmar a infecção ativa por E. canis e diferenciá-la de outras espécies. Deve ser interpretada em conjunto com o quadro clínico e as alterações hematológicas (trombocitopenia, anemia, hiperglobulinemia). Sorologia isolada positiva pode refletir apenas memória imunológica.

Diferenciais

O que mais entra no raciocínio

  • Babesiose.
  • Anaplasmose.
  • Febre maculosa.
  • Trombocitopenia imunomediada.
  • Lúpus eritematoso sistêmico.
  • Leucemia linfocítica crônica.

Coinfecções são frequentes

O R. sanguineus também transmite Anaplasma sp., Babesia sp., Bartonella sp., Hepatozoon sp. e Mycoplasma sp. Infecções mistas agravam o quadro clínico e podem piorar o prognóstico.

Tratamento

Doxiciclina é a base terapêutica

Antibioticoterapia
  • Doxiciclina 10 mg/kg VO SID ou 5 mg/kg VO BID.
  • Duração: 28 dias (fase aguda).
  • Estender para 6 a 8 semanas em casos persistentes.
  • Resposta clínica costuma ser rápida na fase aguda.
Suporte individualizado
  • Transfusão sanguínea em anemia grave.
  • Fluidoterapia conforme hidratação e perdas.
  • Anti-inflamatórios e imunomoduladores criteriosos.
  • Suporte nutricional de alta densidade energético-proteica.

Monitoramento pós-tratamento

Hemogramas seriados. Sorologia pode permanecer positiva por meses - reflete memória imunológica, não infecção ativa.

Prognóstico

Depende da fase clínica ao diagnóstico

Bom prognóstico
  • Diagnóstico e tratamento na fase aguda.
  • Ausência de coinfecções.
  • Resposta imunológica preservada.
Prognóstico reservado
  • Fase crônica com pancitopenia.
  • Vasculite imunomediada e glomerulonefrite.
  • Sinais neurológicos por meningoencefalite.
  • Coinfecções (Babesia, Anaplasma, Hepatozoon).
Prevenção

Controle do vetor é indispensável

Ainda não há vacina disponível. A base é a profilaxia antiparasitária contínua contra carrapatos, o manejo ambiental e o acompanhamento veterinário periódico. Escolha do antiparasitário deve considerar estilo e fase de vida e necessidades do paciente.

Conclusão

Mensagens para levar da aula

  • Suspeite de erliquiose em cães com trombocitopenia, esplenomegalia ou sinais hemorrágicos.
  • Ausência de carrapato visível não descarta a infecção.
  • PCR é o padrão-ouro; sorologia isolada não confirma infecção ativa.
  • Doxiciclina 10 mg/kg SID ou 5 mg/kg BID por 28 dias é o tratamento de escolha.
  • Controle antiparasitário contínuo é a principal medida preventiva.
Investigue coinfecções em pacientes com evolução clínica atípica.
Reavalie hemograma ao término do tratamento.
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