Aula Rápida · Oftalmologia / Cirurgia

Oftalmologia: Enucleação

Cães braquicefálicos e pequenosEmergência oftálmicaProptose ocular
Capa Aula 03
Material escrito da aula
Anexo de apoio
Visão geral

Porque é emergência oftálmica

A proptose do globo ocular é o deslocamento do bulbo para fora da órbita, com aprisionamento das pálpebras atrás do equador do globo. É uma emergência oftálmica verdadeira: cada minuto sem lubrificação e com tração do nervo óptico aumenta o risco de cegueira definitiva, necrose corneana e perda do globo.

  • Mais comum em braquicefálicos e cães de pequeno porte após trauma (briga, atropelamento, contenção exagerada).
  • Avalie reflexo pupilar consensual, integridade dos músculos extraoculares e do nervo óptico para decidir entre salvamento e enucleação.
  • Enucleação está indicada quando há ruptura do globo, secção/avulsão do nervo óptico, midríase fixa, hifema maciço ou inviabilidade da córnea.
  • Procedimento na urgência: estabilize o paciente, avalie comorbidades e leve ao centro cirúrgico assim que possível.
Caso clínico

Surpresa, 10 anos - Pinscher, 3 kg

Surpresa na chegada ao plantão - proptose traumática do olho direito.

Surpresa, pinscher fêmea de 10 anos, 3 kg, chegou ao plantão no dia 24/12 após ser atacada por cerca de 4 cães da própria tutora. A tutora não presenciou o ocorrido; ouviu o tumulto e foi imediatamente até o animal. Antes do evento, a cadela estava alerta, ativa e sem comorbidades conhecidas.

Anamnese complementar
  • Jejum incerto - tutora não conseguiu precisar.
  • Não castrada, vacinada apenas com antirrábica.
  • Sem disúria, fezes normais, sem sinais respiratórios.
  • Vermifugação e ectoparasiticidas atrasados.
  • Nenhuma medicação de uso contínuo.
Exame físico
  • Proptose do globo ocular direito com exposição corneana extensa.
  • Tumores mamários em múltiplas mamas (achado adicional).
  • Ausculta cardiopulmonar: BCNF, NR, CPL.
  • Mucosas normocoradas, linfonodos não reativos, sem algia abdominal.
Decisão clínica

Pelo tempo de exposição, midríase fixa e inviabilidade da córnea, optou-se por enucleação transconjuntival do olho direito. A castração e a mastectomia foram postergadas: a paciente chegou em contexto de urgência, jejum incerto e sem exames pré-anestésicos completos - somar procedimentos eletivos aumenta tempo anestésico e risco sem benefício imediato.

Vista frontal - proptose evidente
Detalhe - exposição corneana e hemorragia
Midríase fixa - córnea inviável
Exames complementares

Pré-anestésicos coletados na chegada. Alterações leves, compatíveis com estresse agudo e idade - sem contraindicação à anestesia para o procedimento de urgência.

Hemograma - leve trombocitose e RDWc aumentado.
Bioquímico - função renal e hepática preservadas; glicose 113 (estresse).
ECG - arritmia sinusal fisiológica, sugestiva de sobrecarga atrial esquerda. Recomendado ecodopplercardiograma.
Anatomia aplicada

O que está em jogo na órbita

O globo ocular é sustentado por sete músculos extraoculares: quatro retos (dorsal, ventral, medial e lateral), dois oblíquos (dorsal e ventral) e o músculo retrator do bulbo, exclusivo dos animais domésticos - é ele que tracionamos e seccionamos no fim da enucleação para liberar o globo.

Músculos extraoculares - retos e oblíquos.
Retrator do bulbo, nervo óptico e fissura orbital.
Corte sagital - relações musculares e globo.
Órbita óssea e forames de passagem.
Suprimento vascular - origem dos sangramentos durante a enucleação.
Dolicocéfalo, mesocéfalo e braquicéfalo - a órbita rasa do braquicefálico explica a predisposição à proptose.
Nervo óptico
Sai pelo forame óptico em direção ao quiasma. Nunca tracionar: estiramento causa neurite, lesão axonal e pode comprometer o nervo contralateral via decussação no quiasma - risco de cegueira no olho são.
Reflexo oculocardíaco
Tração do globo ou do reto medial estimula o ramo oftálmico do trigêmeo e desencadeia bradicardia reflexa via vago, podendo evoluir para parada. Manipule com delicadeza e avise o anestesista antes de tracionar.
Manejo pré-operatório

Estabilização antes da sala

  • Acesso venoso, fluidoterapia e analgesia (opioide).
  • Lubrificação intensa do globo (gel oftálmico estéril) enquanto aguarda cirurgia.
  • Antibioticoterapia perioperatória (amoxicilina+clavulanato ou cefalosporina de 1ª).
  • Hemograma, bioquímico básico e avaliação cardiorrespiratória pré-anestésica.
  • Eletrocardiograma se houver suspeita de arritmia ou paciente idoso/cardiopata.
  • Conversa franca com o tutor: prognóstico visual nulo, foco em conforto e controle de dor.
Técnica cirúrgica

Enucleação transconjuntival passo a passo

Há duas vias: transpalpebral (mais indicada em infecção/neoplasia intraocular, pois fecha o saco conjuntival antes da dissecção) e transconjuntival (mais rápida, menos sangramento, escolhida em proptose traumática com globo viável para remoção). Para Surpresa, optou-se pela transconjuntival.

1
Preparo
Decúbito lateral com o olho afetado para cima. Tricotomia ampla periocular. Antissepsia com PVPI diluído 1:50 em soro fisiológico(0,1 mL de PVPI em 10 mL de soro) - nunca clorexidina próximo do globo.
2
Cantotomia lateral
Pequena incisão no canto lateral para ampliar o campo cirúrgico e facilitar o acesso ao bulbo proptosado.
A) cantotomia lateral com tesoura. B) campo aberto com blefarostato após cantotomia.
3
Desinserção da conjuntiva 360°
Solte a conjuntiva bulbar ao redor de todo o limbo. Use pinça hemostática mosquito e tesoura de Metzenbaum para divulsionar com cuidado.
A) desinserção conjuntival rente ao limbo. B) dissecção 360° expondo a esclera.
4
Secção dos músculos extraoculares
Identifique e secione os retos e oblíquos rente à esclera. Por último, o músculo retrator do bulbo, que libera o globo da órbita.
5
Nervo óptico
Pince o nervo óptico com hemostática sem tracionar o globo. Secione distal à pinça. Ligadura com fio absorvível 4-0/5-0. Comunique o anestesista - momento de maior risco de bradicardia reflexa.
6
Remoção das estruturas obrigatórias
Para caracterizar enucleação é preciso remover: globo ocular + terceira pálpebra + carúncula medial + margens palpebrais superior e inferior (com glândulas de Meibômio) + conjuntiva. Mantê-las é erro de técnica.
7
Fechamento
Hemostasia rigorosa da órbita. Sutura do tecido subcutâneo com padrão contínuo (poliglactina 4-0) e pele com pontos simples separados (náilon 4-0/5-0). Curativo protetor leve e colar elisabetano.
Sequência completa - A) sutura inicial das pálpebras, B) dissecção, C) secção dos músculos, D) nervo óptico, E) fechamento final.
Intraoperatório de Surpresa

Da exposição ao globo removido

Registros do procedimento realizado em Surpresa, mas as imagens abaixo são de livro e não do procedimento da paciente. A sequência mostra a exposição do globo com blefarostato, a dissecção dos músculos extraoculares, o momento crítico do nervo óptico e a peça cirúrgica ao final.

1. Exposição com blefarostato.
2. Dissecção dos músculos extraoculares.
3. Nervo óptico - momento de risco oculocardíaco.
4. Peça removida - globo com nervo óptico íntegro.
Pulos do gato

Erros técnicos que cobram caro depois

Deixar a terceira pálpebra
A glândula da terceira pálpebra continua produzindo lágrima. Resultado: acúmulo de secreção no fundo da órbita fechada, formação de cisto ou abscesso retro-orbitário semanas/meses depois.
Não remover as margens palpebrais
As glândulas de Meibômio produzem secreção lipídica. Margens mantidas geram fístulas crônicas e atrapalham a cicatrização. Atenção especial à carúncula medial - se ficar, fístula garantida.
Tracionar o globo
Causa neurite óptica e pode lesar o nervo contralateral pelo quiasma. Sempre dissecar até o nervo óptico e só então pinçar - nunca puxar o olho para "facilitar" a abordagem.
Ignorar o reflexo oculocardíaco
Bradicardia súbita intraoperatória pede pausa imediata na manipulação, atropina pronta e diálogo constante com o anestesista. Em pacientes pequenos como Surpresa (3 kg), a margem é estreita.
Pós-operatório

O que monitorar e orientar

Pós-operatório imediato - sutura cosmética com aspecto de pálpebra fechada.

Sutura limpa, sem tensão e sem coleção subcutânea. A partir daqui, o objetivo é controle de dor, prevenção de auto-trauma e vigilância do olho contralateral.

  • Analgesia multimodal por 5-7 dias (opioide + AINE quando função renal/hepática permitir).
  • Antibiótico oral por 7-10 dias se houver contaminação do trauma.
  • Colar elisabetano até retirada de pontos (10-14 dias).
  • Encaminhar fragmento do globo para histopatologia quando suspeita de neoplasia.
  • Reavaliação do olho contralateral em 7 e 30 dias - sinais de neurite cruzada são tardios.
  • Conversar sobre castração e nodulectomia mamária como segundo tempo cirúrgico, após estabilização.
O que não tem nos livros

Dica de rotina

Combinado com o anestesista

Antes de pinçar o nervo óptico, avise em voz alta: "vou no nervo óptico agora". Isso permite que o anestesista observe o monitor e tenha atropina pronta na seringa. Em cães pequenos e braquicefálicos, o reflexo oculocardíaco aparece em segundos - combinar esse passo evita susto e ganha tempo se a bradicardia se instalar.

Prognóstico

O que conversar com o tutor

  • Cicatrização cosmética excelente em 14 dias, com aspecto de pálpebra fechada.
  • Sem prejuízo funcional importante - cães se adaptam rapidamente à visão monocular.
  • Riscos imediatos: hemorragia retro-orbitária, deiscência e infecção (raros com técnica correta).
  • Riscos tardios: fístula/abscesso se terceira pálpebra, carúncula ou margens forem mantidas.
  • Em proptose por trauma, reforçar contenção e separação dos animais para evitar recidiva no olho contralateral.
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