Aula Rápida · Neurologia / Clínica

Síndrome da Cauda Equina em Cães

Cães grandes de meia-idadeJunção lombossacra (L7-S1)Déficit neurológico caudal
02:34 / 08:12
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Caso clínico

Reconhecendo o paciente típico

Cão de grande porte, de meia-idade, com histórico de dor lombossacra, fraqueza flexora dos membros pélvicos, relutância em pular ou subir escadas. Ao exame: diminuição do tônus do esfíncter anal, perda do reflexo perineal e da sensibilidade na cauda, com dor à palpação profunda da junção lombossacra.

Visão geral

O que é a Síndrome da Cauda Equina

A síndrome da cauda equina em cães é uma condição caracterizada pela compressão das raízes nervosas lombossacrais (L7-S1 em diante, incluindo as raízes caudais). Não é uma doença única, mas sim uma síndrome compressiva com múltiplas causas que convergem para a mesma apresentação clínica.

Dissecação x esquema - feixe de raízes nervosas que segue após o cone medular.
  • Definição: conjunto de raízes nervosas derivadas dos segmentos medulares terminais, a partir de L7 em direção caudal.
  • Estrutura envolvida: raízes nervosas periféricas (SNP) - não há medula espinhal nessa região.
  • Perfil típico: cão adulto/idoso (a partir de ~5 anos), raça grande, evolução crônica, dor moderada.
Nervos que se originam na cauda equina
  • N. Ciático (L6, L7, S1) - flexão do membro pélvico.
  • N. Pudendo (S1, S2, S3) - sensibilidade perineal, esfíncter anal externo.
  • N. Pélvico (S1, S2, S3) - controle vesical (parassimpático).
  • N. Caudal (Cc1-Cc5) - movimentação e sensibilidade da cauda.
Etiologias possíveis
  • Degenerativas: estenose lombossacra, DDIV tipo I em L7-S1.
  • Anômalas/desenvolvimento: malformações vertebrais, osteocondrose sacral.
  • Neoplásicas: tumores primários e secundários.
  • Infecciosas/inflamatórias: discoespondilite, abscesso.
  • Isquêmicas/vasculares: claudicação neurogênica intermitente.
  • Traumáticas: contusão (indireto) ou laceração (direto).
Sinais clínicos

O que o tutor relata e o que você encontra

Queixas do tutor
  • Dor na região lombossacra, vocalização ao levantar.
  • Relutância em pular, subir escadas ou no carro.
  • Fraqueza flexora dos membros pélvicos, pode ocorrer claudicação.
  • Incontinência fecal e/ou urinária - perdas durante o repouso.
  • Lambedura excessiva da região perineal e da cauda.
Achados ao exame neurológico
  • Dor à palpação profunda e à hiperextensão da junção lombossacra.
  • Diminuição do tônus do esfíncter anal.
  • Perda ou redução do reflexo perineal.
  • Hipoestesia da cauda e da região perineal.
  • Atrofia muscular de membros pélvicos e da cauda.
O que SE observa nas compressões LS
  • Dor espinhal leve a moderada (lombossacra).
  • Paraparesia flexora.
  • Claudicação dos membros pélvicos.
  • Diminuição do reflexo flexor (sciático).
O que NÃO se observa
  • Paraplegia.
  • Ataxia proprioceptiva.
  • Paraparesia não deambulatória.
  • Redução do reflexo patelar - suporte extensor e reflexo patelar NUNCA são afetados.
Reação postural e flexor de retirada diminuídos com patelar preservado.
Palpação retal: só existem duas razões para não realizá-la na suspeita de cauda equina - ausência de ânus ou ausência de dedos. Avalia tônus do esfíncter anal externo, dor à manipulação lombossacra cranial e alterações da próstata/região pélvica.
Diagnóstico diferencial

Por que não é outra doença?

Não é Wobbler
A espondilomielopatia cervical caudal afeta a coluna cervical e cursa com ataxia dos quatro membros, predominando em membros torácicos. Não explica dor lombossacra nem incontinência.
Não é Mielopatia Degenerativa
Doença indolor, com ataxia proprioceptiva progressiva dos pélvicos. Aqui temos dor lombossacra marcante e déficits sacrais agudos - não combina.
Não é Polirradiculoneurite
Quadro agudo, simétrico e ascendente, geralmente sem dor lombossacra focal e sem incontinência esfincteriana como sinal cardinal.
Não é DDIV típica toracolombar
Hérnia em T11-L3 dá sinais de NMS nos pélvicos.
Causas

Etiologias que produzem a mesma síndrome

  • Degenerativa (mais comum): estenose lombossacra degenerativa - protrusão de disco L7-S1, hipertrofia ligamentar e proliferação óssea facetária.
  • Tumoral: neoplasias vertebrais ou de bainha de nervo comprimindo as raízes.
  • Infecciosa/inflamatória: discoespondilite L7-S1.
  • Congênita: malformações vertebrais, instabilidade lombossacra, vértebra transicional.
  • Traumática/vascular: fraturas-luxações sacrais, infartos de raízes.
Padrão-ouro

O que define a conduta correta

Padrão-ouro de imagem

Ressonância magnética + correlação clínica

A ressonância magnética (RM) da junção lombossacra é o padrão-ouro para avaliar alterações da região - disco, raízes nervosas, ligamentos e estruturas neurais com altíssima resolução. A tomografia computadorizada é a melhor alternativa quando a RM não estiver disponível, especialmente para detalhar componentes ósseos da estenose. Radiografia simples e mielografia têm baixa sensibilidade e servem apenas como triagem.

Mas a RM, isoladamente, não define a conduta. A junção lombossacra é região de grande sobrecarga mecânica, e é comum encontrar alterações de imagem sem correlação clínica. A decisão terapêutica depende do conjunto: clínica do paciente, exame neurológico, predisposição racial e achados de imagem.

A gente não trata a imagem - a gente trata o paciente.

Pilares diagnósticos
  • Anamnese + exame neurológico localizando em L7-S1.
  • Radiografia simples (subluxação, espondilose, discoespondilite).
  • Ressonância magnética (eleição) ou tomografia computadorizada.
Pilares terapêuticos
  • Casos leves: repouso, controle de peso, analgesia multimodal e fisioterapia.
  • Refratários ou com déficit neurológico: descompressão cirúrgica (laminectomia dorsal de L7-S1).
  • Manejo da bexiga e intestino neurogênicos - parte essencial do cuidado.
  • Reabilitação precoce melhora prognóstico funcional.
Radiografia lateral lombossacra.
RM sagital - L7 em destaque, padrão-ouro de imagem.
Tratamento

Conduzir conforme gravidade e etiologia

A escolha entre tratamento clínico e cirúrgico depende da etiologia, gravidade, idade do paciente e comorbidades. Casos leves geralmente respondem ao manejo conservador; casos moderados a graves, ou refratários, demandam descompressão cirúrgica.

Tratamento clínico (casos leves, idosos)
  • Anti-inflamatório e controle multimodal da dor.
  • Fisioterapia e acupuntura como adjuvantes.
  • Perda de peso e restrição de espaço/atividade.
  • Reavaliação neurológica seriada - progressão indica revisar conduta.
Tratamento cirúrgico
  • Indicado em casos moderados a graves ou sem resposta ao manejo clínico.
  • Técnica de eleição: laminectomia dorsal de L7-S1 para descompressão.
  • Reabilitação precoce melhora o prognóstico funcional.
Diagnóstico

Roteiro de raciocínio clínico

1
Anamnese dirigida
Raça grande, meia-idade ou idoso, dor lombossacra, dificuldade para levantar, incontinência intermitente. Confirme a evolução crônica e progressiva.
2
Exame neurológico segmentar
Hiperextensão da junção lombossacra desperta dor. Avalie tônus anal, reflexo perineal, sensibilidade da cauda e dos dígitos. Reflexo patelar normal a aumentado (pseudo-hipereflexia) com flexor de retirada diminuído.
3
Imagem
Radiografia - procure espondilose, subluxação e discoespondilite. Avance para RM (padrão ouro) ou TC.
4
Definir causa e conduta
Identifique se é degenerativa, tumoral, infecciosa ou traumática - a etiologia muda o tratamento (clínico, cirúrgico ou antimicrobiano prolongado).
Resumo

O essencial em uma página

  • Síndrome compressiva das raízes lombossacrais e caudais (L7-S1 em diante).
  • Não há medula espinhal na região - são nervos periféricos (sinais de NMI).
  • Cão adulto a idoso, raça grande - Pastor Alemão é o paciente clássico.
  • Dor lombossacra + incontinência + déficits sacrais = pensar em cauda equina.
  • Padrão ouro: ressonância magnética da junção lombossacra.
  • Tratamento varia de conservador a cirúrgico conforme gravidade.
Diante de incontinência e dor lombossacra em cão grande, localize neurologicamente antes de pedir imagem - isso direciona o exame e acelera o diagnóstico.
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